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Quarta-feira, 7 de Março de 2007

A MULHER E A VIOLAÇÃO

 

 

O dia internacional da mulher é amanhã, 8 de Março e não o podia deixar passar em branco, como mulher que sou. Relembrando que a primeira mulher licenciada em Medicina em Portugal foi "Elisa Augusta da Conceição Andrade" em 1889.

Mas quis falar ou mesmo dedicar um tema que é incómodo por natureza, mas talvez porque é frequente, infelizmente, se calhar porque me assusta tanto, a "violação", e quem não pensou alguma vez na vítima a quem acontece o inimaginável, uma injusta e violenta experiência, pensando podia ser eu.

Violar é um acto de crueldade, é como mutilar o corpo e mais grave a alma de alguém. As dores de alma são muito mais difíceis de curar, mais do que as do corpo.

Um dos problemas mais graves que surge como um efeito secundário de uma violação é a dificuldade em falar sobre o assunto. A mulher violada separa-se dos outros, afasta-se do mundo e fica mais só, à beira do abismo.

A violação é feita normalmente por desconhecidos que pode ter desfecho trágico, mas por vezes, até por amigos, namorados, maridos, até ao ataque numa rua escura por um estranho.

Ao ficar consciente desta realidade, para a prevenção de qualquer mulher, o que se deve fazer e a quem se deve recorrer para obter ajuda em caso de violação, de olhos bem abertos e conscientes dos riscos que por vezes se corre, li num qualquer artigo de jornal que alguém escreveu, o que se deve fazer para que o violador possa ser capturado:

Não se lave, não tome banho, nem escove o cabelo.

Guarde as roupas que usava num saco de papel ou, se não o tiver, em papel de embrulho ou de jornal, porque o plástico deteriora as provas.

Conserve todos os objectos com que o violador tenha entrado em contacto, nem que seja a ponta de um cigarro.

Não toque em nada no local onde ocorreu a violação.

Dirija-se ao hospital mais próximo, para receber o tratamento adequado e sujeitar-se à peritagem.

Apresente queixa na esquadra da PSP, piquete da PJ, posto da GNR, ou no Tribunal, o mais rapidamente possível.

Procure principalmente apoio psicológico.

 

Depois do choque do acontecimento coloca-se a questão inevitável, fazer ou não a denuncia. Muitas são as vítimas que permanecem em silêncio. Por medo, culpabilização, vergonha e, por outro lado, uma mulher sente-se extremamente exposta numa esquadra; receio dos juízos de valores, os comentários… É demasiado penoso. Além que temos em geral descrença no sistema judicial, a mulher pensa que não vale a pena, que não há provas. Se o processo fosse célere e o criminoso penalizado, isso ajudava à recuperação, mas é justamente ao contrário, a mulher põe os prós e os contras na balança e desiste.

A recuperação assemelha-se ao processo de luto, porque quem é violado sente que lhe foi retirado algo sem o seu consentimento, quanto mais não seja a sua própria dignidade e auto-estima.

Primeiramente instala-se o choque, não se quer acreditar e pode-se até negar a situação, quer isolar-se, chora muito e pode até ter insónias, que pode levar à falta de apetite, a emagrecer, ter dores de estômago, de cabeça, ou seja um ciclo vicioso; se consegue dormir tem pesadelos, quanto mais cedo procurar ajuda, maior a probabilidade de voltar a viver melhor.

Depois vem a culpabilização, em que a vitima se interroga acerca daquilo que poderá ter feito para despoletar a situação ou como poderia tê-la evitado. Segue-se a raiva e o desejo de vingança, o querer punir o violador.

Por fim, vem o processo de aceitação, onde tem de reaprender a viver com aquilo que aconteceu. Apesar de ficar sempre mágoa, marcas psicológicas para sempre, mas pelo menos tentará viver com essa tristeza.

Dificilmente alguma vez a violação deixará de existir, mas um modo de tentar acabar com este pesadelo é começar desde cedo a dar Informação à sociedade em geral. Só há uma grande perda absoluta, a morte. Pode ser esta a solução, lembrar à vítima, que há pior, que teve uma perda, um grande sofrimento, mas não foi absoluta.

Que não foi o fim do mundo, apenas pareceu o fim do mundo. É extremamente difícil recuperar o equilíbrio perdido, mas a mulher deve voltar a acreditar que pode haver um futuro melhor.

 

“A violência, seja qual for a maneira como ela se manifesta,

é sempre uma derrota.”

Jean Paul-Sartre

 

publicado por Dreamfinder às 19:14

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